A segunda quinzena de outubro sempre causa um entusiasmo nos cinéfilos de sp é o período onde acontece a tão esperada Mostra de Cinema de SP. A deste ano será primeira que vai acontecer após a morte do seu criador Leon Cakoff.
Resolvi postar uma pequena memória de alguns filmes que assisti na Mostra.
"O Elemento do Crime" filme de Lars von Trier, primeiro filme que eu assisti desse polêmico e fantástico dinamarquês, sai do filme com aquela sensação de ter visto uma coisa estranha mas interessante, aliás, a mesma sensação que eu tenho em quase todos os filmes de von Trier.
O Sacrífio, de Andrei Tarkovski, nunca fui fã da filmografia de Tarkovski, aliás, está em retrospectiva nesse ano, faz parte da minha seleção pelo lado afetivo, lembro da sessão no antigo Cine Metrópole, uma das sedes mais charmosas por onde a Mostra passou, o filme foi um sacríficio, pero, a companhia....hehehe.
Rosa Luxemburgo, de Margarethe von Trotta um lindo filme que retrata a líder comunista que com firmeza e sutileza enfrentou Lênin e o conservadorismo alemão pré República de Weimar e o Nazismo.
Capitães de Abril, de Maria de Medeiros, o relato da Revolução dos Cravos, em Portugal, minha descoberta de Maria de Medeiros e da minha identidade lusitana.
Depois do Metrópole, um desses maravilhosos cinemas fora de shopping que foi fechado, meu lugar predileto para assistir filmes da Mostra é a sala BNDES da Cinemateca, umas das salas mais belas de sp. Foi lá que eu assisti o ano passado "Os hipopótamos de Pablo Escobar" e que devo assistir alguma novidade nessa edição.
Um dos destaques da Trigésima Bienal de São Paulo é um conjunto de 348 obras de Arthur Bispo do Rosário. Sergipano, de Japaratuba, virou marinheiro no RJ e passou meio século internado em um hospital psiquiátrico ( Colônia Juliano Moreira ).
Produziu sua obra com a total ausência de formação acadêmica e excluído do convívio social, dentro da Colônia Juliano Moreira reprocessava os objetos que chegavam até ele. Desfiava o seu próprio vestuário para usar como linha, que bordava lençóis, cobertores, jaquetas.Reunia série de objetos reprocessando o significado, como a imagem acima, dos diversos Congas usados pelos internos, o que seria o signo da igualdade, os Congas tornam-se um estandarte.
Nos anos 80 com o olhar da arte contemporânea e a antipsiquiatria Bispo do Rosário e reconhecido como artista, em 82 participa de sua primeira exposição "A Margem da Vida" no Museu de Arte Moderna do RJ.Após sua morte, em 89, ganha reconhecimento internacional, e em 1995 representa o Brasil na Bienal de Veneza.
Arte e loucura; delírio e processo de criação; a coleção de objetos em desuso, rejeitados pela sociedade e o centro da sua arte, como ele que também foi rejeitado, vivendo mais de 50 anos isolado no hospício.
Visite a Bienal de SP, tente decodificar o universo de Arthur Bispo do Rosário, a sanidade da loucura. Seja feliz!!
Niemeyer projetou dois dos maiores cartões postais de sp, o Ibirapuera e o Edifício Copan. O Copan junta em um edifício tudo que todos os urbanistas defendem para revitalizar o centro de SP: residências, lazer e um centro comercial.
Sempre admirei aquela onda de concreto na Av. Ipiranga, em alguns períodos da minha vida trabalhei perto do Copan e descobria a forma de interagir com ele. Lembro que no fim da década de 70 ter assistidos filmes no imenso Cine Copan, que logo virou uma Igreja evangélica; depois descobri uma cafeteria nas suas entranhas o Café Floresta, muito antes de ouvir falar em baristas e em blends de grãos de café, o Floresta, na loja 21 do Copan, mostrava um aroma e gosto especial.
Nos últimos anos fui seduzido por dois outros locais do Copan: a filial da Padaria Santa Efigênia, que instalou-se na ponta mais próxima da Consolação e o Dona Onça, mix de bar / restaurante que fez com que eu fosse ao centro aos domingos, pq durante o almoço na semana a fila é imensa.
Hoje descobri uma nova face do Copan: uma galeria de arte. Pivô é o nome, tem uma auto definição complicada: " o Pivô pretende ser um espaço de arte e pesquisa independente, com
relações institucionais menos burocráticas que envolve artistas e
pesquisadores numa discussão contínua sobre o espaço do imóvel no Copan e
o momento de revitalização em que se encontra a região central
dedicando mais atenção às particularidades de cada projeto, e
propiciando aos artistas e pesquisadores convidados possibilidades de
intervenções críticas mais abertas."
Eu definiria com mais simplicidade: oxigênio e inteligência no Copan.
"Da próxima vez eu fazia tudo diferente" é a primeira exposição, o título vem do curta metragem "Documentário" de Sganzerla, que é projetado numa parece logo na entrada do espaço expositivo. Vários artista em um ambiente insólito, a instalação "Dimensão Encerrada" de Lucas Simões, um labirinto dentro de um ambiente desarticulado merece ser vivenciada.
Descubra o centro de sp, descubra o Copan e visite Pivô
O Brasil mudou muito nos últimos anos, o ciclo virtuoso da economia com a entrada no mercado consumidor de mais de 40 milhões de brasileiros que antes estavam renegados a miséria.
O Brasil passou a ser destino de busca de empregos de outros povos: haitianos, portugueses, espanhóis e principalmente nossos vizinhos da América do Sul.
Esse novo ciclo imigratório começa a mudar a cara de alguns bairros de sp: Brás, Pari e Santa Ifigênia tem hoje uma grande população de bolivianos, peruanos e paraguaios. Atraídos pelo bom momento econômico brasileiro vieram para sp em busca de trabalho. Isso possibilita uma boa oportunidade de descobrirmos identidades com nossos hermanos, identidades histórica do processo de exploração dos colonizadores ibéricos e da submissão aos grandes interesses globais.
Essa história similar é uma faceta, outro aspecto delicioso é de poder entrar de cabeça na cultura de nossos vizinhos: descobrir a música, a gastronomia, a artes etc.Deixando de lado velhos preconceitos. Um dos marcos dessa presença é a feira da Kantuta que todo domingo acontece no Pari, é ali que os bolivianos que trabalham na região viabilizam um pedacinho dos Andes em sp. Salteñas, diferentes tipos de milho e batata, aji, cerveza Paceña, refrigerante Inca Kola estão lá para serem descobertos pelos visitantes.
O Perú que virou moda no mundo gastronômico, também se faz presente em sp, seja pelos restaurantes sofisticados de chefs conceituados como o La Mar ( no Itaim Bibi ) ou Killa ( em Perdizes ).
Outro dia fui visitar, com meu comparsa Márcio Costa, o outro lado da gastronomia peruana, o Riconcito Peruano. Riconcito fica quase na esquina da Aurora com a Guaianases ( sim no coração da cracolândia ) ao lado de um daqueles famosos hotéis de curta permanência da Rua Aurora, no número 54l da Aurora não tem placa, só uma escada que leva para o salão no andar de cima. Arrisque-se vale a pena. Devorei um Lomo Saltado a lo pobre, Márcio foi mais arrojado, comeu um Mexido Peruano, uma espécie de paella sem açafrão e com ovos mexidos. Porção farta e conta paga com poucos reais.
O salão do Riconcito tem uma tv passando vídeos de pop latino, uma grande oportunidade para conhecer mais da música que é feita por nossos vizinhos.
Abaixo um vídeo de um encontro que rolou no Rock in Rio, do ano passado, Tiê e o uruguaio Jorge Drexler cantando em português e espanhol "Você não vale nada", imperdível:
"Caminhando, acaba a autoria da obra de arte" Lygia Clark
O início de setembro em sp tem uma secura absurda, que maltrata meus pulmões, mas como tudo na vida tem múltiplas facetas, nessa mesma época, em função Bienal, a cidade está com uma concentração delirante de exposições de arte.
Em período de muito trabalho e pouco tempo livre para aproveitar as coisas boas da cidade, nesse feriado tive que fazer escolhas , opções: filas impressionantes e impressionistas no Centro Cultural BB; as cores berrantes do barroco de Caravaggio no Masp, a pegada street art do grupo SHN, na Choque Cultural, a própria Bienal com Arthur Bispo do Rosário no Ibirapuera, Adriana Varejão minha musa absoluta no MAM e Lygia Clark no Itaú Cultural.
Como tenho a teoria que quem gosta de fila é masoquista, fugi do Centro Cultural BB e do Masp, optei por ir no Itaú Cultural, me dei bem!! Adorei a exposição "Lygia Clark - Uma retrospectiva", super bem montada, com muitas atividades interativas, que para quem vai com criança é fantástico, pq essa pegada lúdica da interatividade desperta a curiosidade da criança para a obra e o artista.
Na minha pobre história da arte brasileira, Lygia Clark sempre esteve relacionada com os movimentos concretos e neoconcretos, parcerias com Hélio Oiticica. A exposição revela outras facetas, extrapolando rótulos e escolas, radicalizando conceitos em suas experiências sensorias. Imperdível calçar sapatos magnéticos e caminhar nos "Campo de Minas" instalação para descarregar a bateria do seu celular e abrir sensações inéditas em um simples andar.
Ver e interagir com a exposição de Lygia Clark faz bem para a alma, para os sentidos, olhar para como as crianças apropriam-se das obras é um estado de auto conhecimento revelador. Depois de sair de Itaú Cultural caminhar pelo jardim da Casa das Rosas e tomar um sorvete numa tradicional sorveteria da Rua Rafael de Barros completa uma bela tarde de sol de sábado. Visite: www.lygiaclark.org.br PS1: Ter ao mesmo tempo Lygia Clark, Arthur Bispo Rosário, Adriana Varejão e Caravaggio pode revelar muito da loucura das pessoas e da cidade. Em sp ninguém é normal.
PS2: Domingão promete: jogo do Juventus pela manhã e Adriana Varejão como atração vespertina.
Irrita-me um pouco a falta de diversidade no vocabulário que as pessoas têm para manifestar suas idéias. A palavra zoar é um exemplo disso, hoje ele é usada com diversos sentidos sempre com o intuito de abreviar uma idéia.
No outro lado dessa história tem uma linguagem bacharelesca que alguns guetos técnicos usam que também arrepia a alma, tenho urticária quando alguém diz algo tipo " na literatura médica pesquisada registrei casos..." literatura como sinônimo de produção científica é de matar...
Essa postagem não tem o sentido de ser algo rabugento, mas comentar sobre uma nova palavra que descobri nessa semana. Estava nas minhas atividades rotineiras de ler relatórios técnicos quando deparei-me com o "nosocômio" no meio do texto.Fui até o Houaiss é descobri o sentido e passei a brincar com ele.
Uma parceira para essas brincadeiras é a Beatriz, ela se diverte com os sentidos diferentes que o mundo lusitano e brasileiro tem com as palavras. Ela dá grande gargalhadas com essas situações, lembro dela numa sorveteria tentando entender o que seria um Gelado Pastilha Elástica.
Propus que ela desse o significado para três palavras, nosocômio, alhures e exarar e olha o que veio:
Nosocômio: Um centro comercial de nozes;
Alhures: O marido da Alheira ( um embutido típico lusitano de origem judaica feito de pão e alho ) e
Exarar: Soltar pum!
Lógico que nenhum dos sentidos por ela proposto tem qualquer proximidade com os sentidos reais dessas palavras, porém, renderam ótimas gargalhadas numa manhã de sábado.
Para facilitar uma preguicinha básica de tentar entender o texto pelo contexto, abaixo os sentidos de algumas palavras desse texto:
Alhures = Em outro lugar
Exarar = Registrar por escrito
Frátria = Reunião de cidadãos para fazer sacrifícios aos Deuses
Gelado de Pastilha Elástica = Sorvete de Chiclete
Nosocômio = Hospital
Agora o pentelho do zoar tem todos esses sentidos abaixo:
■verbointransitivo 1
fazer grande ruído; emitir ou produzir som forte e confuso
Ex.:
<aquelas crianças não paravam de z.>
<as máquinas zoavam incansáveis>
intransitivo 2
produzir ruído ao voar (inseto, p.ex., abelha, besouro, mosca etc.); zumbir intransitivo 3
produzir ruído semelhante ao dos insetos; zumbir, sibilar transitivo direto, transitivo indireto e intransitivo 4Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
fazer troça de; rir de alguém ou fazer-lhe uma brincadeira, por divertimento; caçoar, gozar
Ex.:
<zoava a pobre irmã na presença de todos>
<não me leves a mal, estava apenas zoando contigo>
<você não está falando sério, está zoando, não é?>
intransitivo 5Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
ocupar-se de maneira prazerosa; ir a algum lugar onde há divertimento; divertir-se
Ex.:
em vez de estudar, saiu para z.
intransitivo 6Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
promover confusão, desordem
Ex.:
aqueles baderneiros foram à discoteca para z.
No dia 7 de setembro começará o ano Brasil Portugal com duração até 10 de junho de 2013, o evento vai divulgar a cultura portuguesa contemporânea no Brasil e a brasileira em Portugal. Os eventos começam no Brasil com shows da cantora de fados Mariza e em Portugal apresentações de Ney Matogrosso, Monobloco e Martinho da Vila.
Apesar de toda a história em comum é chocante o desconhecimento no Brasil da produção cultural contemporânea portuguesa. O senso comum brasileiro acha que cultura portuguesa resume-se a Camões, Fernando Pessoa e José Saramago na literatura e Amália Rodrigues e Roberto Leal na música. Uma redução terrível de possibilidades de identidades culturais.
Pensando nisso fiz uma breve coletânea de algumas interações musicais entre Brasil e Portugal:
Maria de Medeiros é atriz, cantora e diretora de cinema, tem participações em filmes como: Pulp Fiction, Henry & June e Capitães de Abril, filme que também dirigiu.
Pedro Abrunhosa é um músico de formação erudita que enveredou-se pelo pop, tem participações em filmes de Manoel de Oliveira e muita interação com a música brasileira. Torcedor do Boavista, tipo um Juventus da cidade do Porto.
"Tanto Mar" de Chico Buarque é um clássico dessa interação, feita em homenagem a Revolução dos Cravos, que derrubou o longa período de ditadura iniciado com Salazar, a música foi censurada pela ditadura brasileira. Quando liberada Chico fez pequenas alterações na letra, com o desencanto dos caminhos trilhados no pós Revolução dos Cravos.
A letra de 1975:
Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim
Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim
A letra de 1978, versão que virou definitiva:
Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim
Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim
Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar
Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim
O ano Portugal no Brasil pode ser um momento para descobrir o que está perto, porém, sem estar revelado.
A imagem de abertura é Miss Jasmine, obra da artista contemporânea portuguesa Joana Vasconcelos.