Na última segunda feira ( 26 de novembro ) foi anunciado os vencedores do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, o vencedor nas categorias Melhor Romance e o Grande Prêmio foi Valter Hugo Mãe com o livro "A Máquina de Fazer Espanhóis".
Valter Hugo Mãe participou da Flip de 2011 ( Festa Literária de Paraty ) o livro "A Máquina de Fazer Espanhóis" foi lançado no Brasil durante o evento. O livro relata as reflexões de um barbeiro que passa a viver no asilo após o falecimento de sua esposa.
No domingo, 18 de novembro, o Jornal Público e a Revista 2 divulgaram uma crônica de Valter refletindo sobre a leitura digital e o livro como objeto do desejo. Aproveito a "deixa" da premiação para divulgar o texto:
Situar
Chamar
Casa de Papel a uma crónica em torno
das coisas dos livros é já denunciar um saudosismo romântico. Fica um
tom melancólico no ar, uma poeticidade a mudar para antiga, talvez um
certo lamento. Não sou nada contra o livro digital e a maravilha que as
tecnologias oferecem. Mas sou do tempo do papel e sonhei com os livros
de papel. Quando pensei ser escritor, um livro assim abriu-se acima da
minha cabeça imaginária como um telhado sob o qual passei a habitar
.
Guardarei sempre essa ideia, ainda que possa vir a
ler em ecrãs sofisticados e frios. O livro de papel, como o coração, é
um símbolo. Habituei-me a conferir-lhe determinadas mágicas que, por
mais sofisticação que me assalte, não serão substituídas. O livro, esse
de folhas, pulsa. O livro pulsa.
As casas de papel são modos de
pensar na tangibilidade do texto, na manualidade de que ele dependeu
para ser lido. São modos de pensar nos autores. Cada autor como um lugar
e um abrigo. Um lugar. Ler um livro é estar num autor. Preciso de
pensar nos objectos para acreditar nos lugares. Oh, nossa deslumbrante
desgraça mudadora, não consigo sentir-me bonito dentro de um Kindle, de
um iPad ou de um Kobo. Penso em mim melhor numa coisa entre capas. A
ilustração sem pilhas. As letras sem pilhas. Eternas e sem mudanças. De
confiança.
Quantas vezes, estupefacto, abri um livro na mesma
página para encontrar a mesma frase da mesma maneira apresentada? E que
prazer saber que a expectativa de que aquele universo se preserve não
sairia gorada, porque os livros de papel são estáveis, não pensam em ser
outra coisa senão por dentro das próprias palavras. Precisei muitas
vezes de reencontrar páginas específicas, com o seu grafismo
cristalizado, o seu grafismo diamante, a guardarem-me o que não podia
perder.
Amar um livro é pedir-lhe que seja sempre nosso, assim,
como um amor que se conserva para repetir ou reaprender. Como poderemos
jurar fidelidade a um texto que se desliga? É como não ter sentimentos,
descansar na morte, não permanecer vivo enquanto espera por nós. É
infiel. Não o podemos sequer perfumar e eu tenho livros que me foram
oferecidos com aroma de buganvílias e canela. Gosto muito.Os leitores,
sabemos bem, são territoriais. Como os cães. Sublinhamos e não
suportamos os sublinhados dos outros. Ainda que toscos, mal alinhados,
são a marca da nossa passagem por ali. É a reclamação da posse. Como os
cães. Como, pois, dar provimento a essa natureza num ecrã? Que efeito
terá uma linha mandada traçar por um comando asséptico que não se pode
comparar com o chichi? O dos cães.Faz-me sofrer. Confesso. Faz-me
sofrer.
http://www.publico.pt/cultura/noticia/xxx-situar-1573347